cronicas e memorias da autora
Quarta-feira, Agosto 29, 2007
A maternidade constroi pontes, entre o metafisico e o real, entre a mais profunda duvida sobre os deslimites de um mundo que se abre em luz e a certeza que somos seres teluricos, absolutamente divinos.
Quando vi
Querô, do Carlos Cortez, mergulhei na sensação que a maternidade determina indelevelmente as nossas vidas na condição de filhos.
E como mãe, senti a vontade arrebatadora de tomar aquele bebe no colo. Arrancá-lo do seu destino trágico de ser Querô, filho de uma investida suicida de sua mae em uma balde de querosene dando fim a sua existencia miseravel.
Depois do filme tentei escrever sobre o que a maternidade me trouxe, sobre como ela arrombou uma claraboia de luz sobre mim e me fez inaugurar com o mundo uma outra relação, a de carinho, de cuidado, coisa que nao encontraria espaço em minha vida, a.p, ou seja, antes do Pedro.
Ontem criei coragem e assisti a Requiem para um sonho, o filme me sugou a alma, arrancou de mim a crença no espirito humano, na iluminação divina, na sublimação diante do abismo.
E conclui o que ja sabia, prefiro o cinema que me alimenta, que me faz crer. Gosto de ser crente, mesmo que inocente, pura e besta.
Hoje a imagem me redimiu, me arrancou de um vazio que me impedia de viajar por meus labirintos ingenuos por onde me deixo conduzir ha anos, exatamente 35 creio eu.
Vi Parteiras da Amazonia - mensageiras da luz, do Evaldo Mocarzel, filme que ja havia visto em curta-metragem, quando estava internada em minha saga grega(ou seria mexicana?) no Sarah , fazendo a curadoria de curtas do festival de BH. O filme na época me causou tamanho desconforto diante da força descomunal da vida em estado bruto, que tive de me render a um tylenol de 750 mg.
Hoje a versão em longa-metragem me fez sentir orgulho em partilhar de todo este turbilhao que é a maternidade, compreendi a angustia, o amor descomunal, a culpa a duvida o medo e a proteção que acompanham a força deste desafio.
Me senti plena e forte, me senti um bicho que dá continuidade à divina saga da existencia, me senti unica e igual a todas as especies que obstinadamente se entregam a serena e absoluta experiencia da maternidade.
Me vi em todas aquelas mulheres, que se viram em suas maes, no pequeno enquadramento virtual de suas vidas, no monitor do metacinema do Evaldo, e compreendi que a vida flui, como os raios dourados, diariamente, serenamente e tragicamente. Doce e violenta como a pororoca, calma e incessante como a linha que nos redime diante do nada que é findá-la.
postado por: 12:16 AM
Terça-feira, Agosto 28, 2007
Quando a chuva derrete a tarde
A tarde chuvosa me rouba o tempo, a ilusão de uma calma é quebrada pela insistência do relógio em lembrar que apesar do cenário em constante luz branca, as horas passam e a noite não demora a chegar...
Tardes chuvosas me dão um conforto calmo, como se o tempo passasse mais suave, não sinto o ímpeto louco de sair pelo mundo que os verões azuis gritam. As tardes de chuva me transportam para um tempo da infância, quando o frio de Diamantina adiava tudo sem culpa...
Chuva era sinônimo de espera, e eu ficava na janela olhando as cores das casas se derreterem e as montanhas se camuflarem entre a nevoa úmida que emoldurava tudo...
E quando a enxurrada transformava a minha rua em uma corredeira, lançávamos barquinhos de papel em uma corrida tortuosa até o próximo bueiro.
Esta sensação de calma e conforto se impregnou em mim e as tardes de chuva continuam me trazendo esta ilusão de que tudo pode esperar...Esta crença que o divino me presenteou com um dia dedicado ao ócio e a saudade calma de um tempo que paira sem ponteiros sobre mim.
postado por: 3:19 PM
Quarta-feira, Agosto 22, 2007
Quando eu crescer quero ser Antonieta
Ultimamente a minha vida tem estado ancorada a um tedio que as vezes tem roubado a minha razão.
Um destes sinais de delirio é a minha mais profunda inveja da minha gata, Antonieta. Uma gatinha vira lata, com pelo rajado, uma tigreza de unhas brancas e olhos cor de mel.
Cheia de personalidade e malicia, ela faz o que a vida pode oferecer de melhor, brincar, dormir, comer e brincar.
Nada tira o humor desta pequena selvagem, embora nada sociavel ou docil, pelo contrario, ja tatuou as suas garras em todos nós, Marcelo, eu e o pedro, Antonieta é adorável, rouba a cena quando recebemos visitas.
Como o nome de rainha e louca predestinou, Antonieta nao é nada ponderada ou modesta, é dada a exageros, adora a minha cama, a maior da casa, a minha cadeira do computador, também a mais confortável, e a janela da sala. De onde observa o voo cego dos pombos e as caretas provocativas dos micos no telhado da igreja.
nada a preocupa, o aluguel no final do mes, as contas do cartão de credito, saudades dos amigos que ela nao conheceu, nada...
Sua vida segue plena feliz, entre uma noite e outra, uma bola de gude e outra e uma caça no reino dos insetos e uma tigela de ração, fácil, gostosa e gratuita.
Quando crescer quero ser Antonieta, me esconder no armario quentinho, correr atras de um cadarço desavisado ou de uma bola faceira e observar quem cuida de mim tomando banho, como se a água fosse o territorio dos gatos, e o é, dos livres que nao se prendem a convenções, afinal, Antonieta nao é apenas uma gata...
Ela tem um pouco do Macunaíma que ha em nós em dias de puro delírio, onde o mais simples pode inspirar os desejos mais grandiosos de liberdade e preguiça
postado por: 12:04 PM
Terça-feira, Agosto 21, 2007
Estes escritos nasceram de um show de rock, e também da mais completa e absoluta sensação que a vida se jogou em um abismo sem gravidade, onde as coisas levitam e dentro de mim, o abismo é maior e mais inerte.
Fui ao show do Roger Waters e passei por uma epifania, ou por uma experiência mística, independente de leitura poética ou filosófica do tema ou da sensação que vivi naquele momento, alguma coisa me transportou desta para melhor. Aquela imersão no reino do deus rock´n´roll, me transportou para o que acredito ser meu eu mais verdadeiro e essencial, prazeroso, sem culpa, feliz e me deparei diante de mim mesma, há quinze anos, quando vivia a mais profunda paixão pelo underground.
Eram tardes experimentando as sensações que ..., o rock e a amizade propiciam. Tempos de faculdade de jornalismo, as palavras de Barthes, Marcuse, Weber e Mac Luhan se misturavam aos acordes dos Rolling Stones, e ao lado escuro da lua de Waters.
Todos aqueles anos se convertem em minha memória em uma penumbra uniforme, prazerosa que vaga lenta e colorida pelas lentes estranhas de quem olha a própria vida como se fosse de outro, sem a menor continuidade. Aquela eu tem pouca ligação comigo hoje, mas ao mesmo tempo, sou inegavelmente eu mesma.
É bom lembrar de festas, quando ouvia frases do tipo, fulana é como uma roda gigante, ou mergulharmos todos no chão, em longas gargalhadas e muita, muita musica. Festas a Baco, cazuza, rituais para a deusa Diana, que me levou descalça a cruzar Belo Horizonte e descer a avenida do contorno ao som do rei Roberto Carlos em uma carona alucinada em um Passat verde, com alguém que nunca mais veria. Ou subir para o bar do Lulu na carona de um motorista de táxi que resolveu nos levar porque brilhávamos muito. Isto foi maravilhoso!
Eu descalça com uma flor de ibisco na cabeça, depois de palavras ritualísticas descobertas em um livro velho na biblioteca da UFMG e duas garrafas de Chateau Duvalier...
Outro acontecimento que tocou o metafísico, que até hoje se revela absolutamente inexplicável pela lógica racional, foi a visita de Marco Antonio. Estava ele em Tiradentes, havia ido de carona em uma tarde chuvosa, um convite absolutamente recusável. Naquele dia eu dormira na casa de um namorado na época. Eu, que como todos sabem nunca acordo cedo, acordei antes das sete horas. Me levantei de súbito e fui para casa, deitei em minha cama, quase em continuidade, sem acordar de fato. Ouvi alguém batendo no portão, levantei-me ainda dormindo, abri, olhei para Marco Antonio, óculos escuros, blusa laranja, sorriso estático no rosto. Ele me disse alguma coisa sem tirar o sorriso do rosto, me lembro de dizer que tinha algo a dizer a Cinthya, que ainda morava comigo. Eu disse que sentasse na sala e esperasse, que eu iria dormir mais um pouco.
Fui para a minha cama e ouvi o portão bater, adormeci. Acordei por volta das 11 horas e com remorso por não ter dado atenção ao meu amigo liguei para casa dele. O irmão dele atendeu,ele me disse, Marco está em, Tiradentes!
Eu não acreditei, achei que algo terrível havia acontecido ao meu amigo, embora soubesse que provavelmente nada havia acontecido de fato. Esperei pela noite quando ele chegou, arrepiei ao saber que ele estava de fato em Tiradentes, em uma igreja com a mesma roupa que descrevi e ouvindo um órgão, chorando e pensando em suas amigas, eu, Cinthya e Andreia.
Este fato faz parte de todo um repertorio misterioso protagonizado por Marco Antonio, um amigo que transita com desenvoltura entre este mundo e o imaginário, por ser de alma volátil, leve, plenamente etérea.
Marco é a única pessoa que conheço que transita entre o mundo dos espíritos e dos anjos com a mesma freqüência. Em um apartamento que morava na rua Pouso Alegre, em Belo Horizonte, ele dividia o teto com uma família de almas esquecidas na terra. Chegava em casa encontrava-os espalhados pelo sofá, na cozinha e em seu quarto...Apenas pedia que fossem do bem e não o incomodassem, com o mesmo tom ranzinza e adorável que chamava a atenção do meu filho Pedro como um tio rabugento e rígido.
O anjo o visitou em Caraíva, paraíso no sul da Bahia,onde fomos livres e felizes por alguns verões. Em uma destas viagens, das quais eu voltava com gás para viver mais cinco vidas,Marco saiu para ir a praia a noite, fazer uma caminhada, encontrar conosco que o esperávamos em algum lugar, não me lembro bem. No caminho ouviu uma voz grave e doce, olhou e viu uma espécie de nuvem escura, rodeada de luzinhas douradas, era o seu anjo da guarda, que confessou que gostava dele e aconselhou-o que continuasse sempre no caminho do bem. Como Caraíva é o templo dos hippies pos modernos, palco da vida livre dos moderninhos e espaço aberto para experimentações alucinógenas, em um primeiro momento, esta historia soa como uma viagem de acido ou maconha, mas não, meu amigo tinha acabado de sair de casa e conta isto com os olhos cheios de emoção e verdade, solenemente e para poucos amigos. Durante muito tempo ele acreditou que era um vampiro, e como todas as suas loucuras mais lúcidas, levou a serio toda uma teoria que o fazia crer nisso. Um dia ele entrou na casa do irmão sem ser convidado e não virou pó, ficou imensamente triste de saber que era um mortal, mais apto ao mundo da luz que das trevas.
Vivi alguns dos momentos mais felizes da minha vida ao lado do Marco Antonio
postado por: 2:18 PM
Ola, espero que seja meu companheiro nesta viagem, vou dividir com voce um pouco da experiencia de buscar a intensidade e o amor que a vida esconde sob o tapete do cotidiano. Tedio e tesão, dionisio e apolo, pragmatismo e sonho dividem a vida em completo desequilibrio, o grande lance é ser sereno diante das provocações que a existencia teima em lançar diante dos nossos pés!
postado por: 2:10 PM