antes que a tarde acabe

cronicas e memorias da autora



Domingo, Outubro 04, 2009

Planetário

Nada superava o meu desejo incontrolável de me perder entre as estrelas, desde que me deixei hipnotizar por essa mania quando perdia noites inteiras mergulhada naquela teia rendada sobre a minha cabeça.
Quando pequena devorava livros inteiros, tentando entender qual o meu tamanho diante de um universo tão grande. Como eu poderia ser tão pequena se dentro de mim cabia um vulcão?
Nada me desfez desta certeza, sentir um vulcão entre as entranhas pode nos levar por um caminho perigoso, o da erupção irreversível dentro de nós, deixando correr lavas, queimando a pele e inundando de fogo o território morno e calmo da razão. Mas entre eclipses, cometas e nenhum disco voador, eu preferi ser mesmo assim, um açude incandescente.
E foi assim, amando as estrelas, que cresci distante daqui, acreditando que o mundo era mesmo um mistério e que o nosso papel aqui é desconfiar desta vida besta que se traveste de realidade, enganando a todos e nos fazendo acreditar, que elas as estrelas, são enfeites de natal.
Entre tropeços e ilusões reais, ainda consegui disfarçar a minha lunática fé nas estrelas, e foram elas, embaçadas ou desnudas, que me mantiveram aqui, com os pés na terra.
Quando criança, meu desejo maior era captar a sorrateira mudança do manto do céu, que de azulzinho e vermelho, ficava negro e pintado de prata. Passava noites a fio na tentativa de capturar o momento mágico, que de claro o mundo se pintava de escuro. Mas a velocidade das minhas palavras e os parcos recursos do meu vocabulário não alcançavam aquela esperteza vertiginosa, e quando eu me distraía na virgula o céu já era noite.
Os eclipses não, eu conseguia aprisionar em meus olhos a imagem mágica do mundo em ficção, do mundo em seu melhor desempenho da fantasia, e em uma única noite eu via a lua que sempre se cobria de prata, se fantasiar de vermelho, e eu então voltava a acreditar piamente que eu tinha sim, um vulcão dentro de mim, e que nesses momentos, em que o mundo era mais enfeitiçado e interessante, explodia em mim pura lava inundando a certeza de que eu era feliz.
E esse era o nosso segredo, meu e do mundo...
Mas um dia eu cresci, e meus olhos se desgrudaram do céu e se enfeitiçaram pela terra, pela cor marrom e pela sinuosa curva do contorno da montanha pelo sol. E aquele mundo que era imenso, que me fazia me sentir tão ridiculamente pequena e importante, me mostrou que eu também era grande. Então vi tudo em uma pequena poça d’água onde cabiam juntas a lua e a estrela mais brilhante.
E toda a inundação que o eclipse me causava, eu fiz sentir dentro dos olhos de alguém. E descobri que a mesma luz que pinta a noite tinge também pequenas porções aqui da Terra. E descobri que alguém, em sua mais profunda sabedoria, engarrafou estrelas em potes de gente, via lácteas inteiras dentro de um mesmo porta jóias, guardadas em tenra seda ou macio veludo, e mais perto das minhas mãos eu pude tocar estes tesouros, libertar estrelas, clarear noites inteiras, pelas mãos e bocas de alguém.
E de repente este passou a ser o nosso segredo, meu e do mundo...
E eu podia sentir de novo toneladas de lava invadindo o meu mundo. Galáxias inteiras se abriam, e eu percebi que as mais sinuosas curvas das constelações cabiam inteiras dentro da boca de alguém, e que assim como a sorrateira noite, eu podia sozinha fazê-las dançar para mim em um instante, e fiz de novo o meu pacto com o universo.
Mas me cansei das estrelas engarrafadas e de repente, me fiz querer de novo aquelas lá do céu, e triste, não libertava mais as pequenas flechas de luz que habitavam o céu da boca de alguém, e não sabia mais onde procurar a mágica tinta do universo, aquela que tinge o dia de noite, e o outro já não me bastava mais, já não cabia em si todas as estrelas do mundo e já não fazia correr em mim a lava de um vulcão.
E olhando para o céu, não encontrei também aquela luz rendada, e o meu cochicho com o mundo se calou, já não tínhamos mais segredo entre nós.
E triste o mundo se tingiu de cinza, os olhos de alguém, o recorte sinuoso das montanhas e as estrelas que rompiam o manto escuro da noite, tudo se fez comum, e como um interruptor, apaguei todas as luzes.
Pobre torrente quieta que não corria mais e não tinha mais em mim o seu vulcão. O mundo e eu ficamos em silencio, sem segredos e nenhum mistério que fizesse valer a pena os verbos do planeta.
Não vi mais a lua se tingir de vermelho, nem fiz correr cometas sorrateiros rasgando a virgem estagnação da noite. Não vi mais a luz que se faz constelação nos olhos de alguém espelhando em mim o que me é tão desigual e fazendo torrente onde não pulsava nada.
E tudo ficou quieto, eu o mundo e o vulcão...
Até que um dia, um céu se fez de novo dentro de mim, e em vez de lavas, senti a luz escorregar por minhas veias, e uma lua imensa cresceu na abóbada líquida da minha barriga, e de crescente ela se fez nova, para depois, muito vaidosa, ser a mais redonda e cheia lua deste mundo. E esta lua encheu minha vida de estrelas e cometas, e toda a sorte de planetas veio habitar o mundo que se fez imenso dentro de mim. E eu de repente me vi grande de novo em um universo de absoluta infinitude.
Eu e o mundo fizemos as pazes, e a luz que nasceu por uma sinfonia doce e estridente em minha galáxia se tornou o meu satélite, rondando a minha órbita, fazendo de mim a mais fiel cúmplice do universo, de todos os seus segredos, os que tingem a lua de vermelho e os que fazem correr lavas dentro de nós.

postado por: 10:15 PM



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